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Blockchain é a nova Governança

Blockchain é a nova Governança
Muito se fala das tecnologias de blockchain, tokens, ICOs etc... Mas como elas podem impactar a governança corporativa?

Para tentar apontar caminhos vale equalizar alguns conceitos...

Blockchain é a tecnologia que permite manter um registro histórico imutável de transações realizadas e validadas por todos os participantes de uma rede. É apoiada na descentralização dos dados, com a melhor medida de segurança para evitar riscos de centralização de um sistema. Funciona como um livro-razão, só que de forma pública, compartilhada e universal. Cria consenso e confiança na comunicação direta entre duas partes, ou seja, sem o intermédio de terceiros (aqui começa o território da governança...).

A blockchain possui informação completa sobre endereços e transações realizadas por participante, escritas e validadas, publicamente verificáveis, contendo o momento exato em que foram acordadas. É pública, mas anônima. É vista como a principal inovação tecnológica por trás do Bitcoin, pois é a prova inegável, inviolável e incorruptível de todas as transações feitas nessa rede. Imagine o nível de controle e histórico que será possível obter das decisões tomadas em um conselho. Por exemplo: anos depois, quem decidiu exatamente o quê sobre a compra da refinaria de Pasadena pela Petrobras?

ICOs

É a sigla em inglês para "Initial Coin Offering", em alusão ao termo IPO, para definir capitalizações em criptomoedas. A empresa russa Blackmoon, por exemplo, ofereceu tokenizar o IPO da Xiaomi, de modo que os investidores pudessem aportar criptomoedas. Esse é um dos tipos de tokens, os security tokens. É como se fosse a ficha de um cassino e possui um ativo real associado a ele. Segundo Bernardo Quintão, Managing Partner na Bossa Nova Advisors, um ativo tokenizado pode mudar completamente o mercado de ações pois permite uma descentralização muito maior nos processos de custódia, compliance, transação, verificação e controle dos ativos pelas partes envolvidas.

Embora de grande impacto, não são os security tokens os mais comuns, mas sim os utility tokens, que oferecem acesso a uma plataforma especifica (um único cassino). Um exemplo é o ICO de US$ 60 milhões da rede Ethereum, que através da sua moeda, o Ether, permite usar a rede para escrever e executar automaticamente contratos inteligentes, os smart contracts.

O que são smart contracts?

São contratos inteligentes autoexecutáveis. Essa inovação permite que duas partes que não se conheçam façam, entre si, negócios de alto nível e complexidade pela internet, sem a necessidade de um intermediário central, como bancos, cartórios ou juízes. Tudo pelo código escrito no contrato, seja um contrato/estatuto social, um contrato bilateral, comercial ou financeiro. Pense em transferências de controle ou títulos de dívida conversíveis que, após o acionamento de gatilhos, sejam automaticamente executadas, independentemente de suas naturezas.

É apenas uma questão de tempo e velocidade de adoção tecnológica para que este conceito afete as nossas vidas. Dessas inovações surgirão novas empresas, novas redes de blockchain e novos conceitos socioeconômicos profundamente transformadores para nossa sociedade. Nasceram novos tipos de organizações autônomas descentralizadas, sem um agente centralizador de poder. O código é a regra universal que serve a todos os nós de uma rede.

Surgirão fundos de investimento sem um gestor central e até empresas sem a necessidade de um CEO único, redes como a Uber sem a necessidade de uma empresa Uber, Amazon sem a Amazon. Um país sem um governo central.

Já imaginou toda a Constituição Federal escrita num código de computador e autoexecutável? Ou o estatuto social de uma empresa ou organização? Como se darão as relações entre partes interessadas e conselhos interconectados? Isso já está acontecendo! Todos os intermediários em todas as cadeias de valor serão automatizáveis, autoexecutáveis, com custo marginal tendendo a zero. E o salto quântico que essas tecnologias estão causando na governança do futuro está acontecendo numa velocidade incrível!

Internet é comunicação, blockchain é governança.

Se a revolução da internet foi causada pela descentralização da comunicação, a revolução a seguir, em magnitude similar ou maior, será causada pela blockchain na governança. Chegamos à era da "internet do valor". Evoluímos muito na comunicação pela internet, mas ainda governamos o mundo de maneira completamente analógica ou, no máximo, versões analógicas digitalizadas (escaneadas) de decisões, ritos, transações, enquetes e votações acontecidas no mundo real e transcritas para o digital. Imagine uma nova arquitetura de fundamentos de governança sobre políticas de uso da informação, transparência, controle, relações com investidores e confidencialidade. Num futuro breve, decisões automaticamente executarão consequências. O avanço das tecnologias de comunicação associado à blockchain permitirá maior abertura dos conselhos, mais colaboração, melhores decisões, mais rápidas e com maior segurança. Assim como num clique mandamos uma mensagem, gatilhos digitais irão disparar transações automáticas.

Como blockchain pode mudar a governança do mundo?

Todos conhecem as características de um sistema político de democracia direta, no qual todos têm poder de voto direto sobre todas as pautas, e o sistema político de democracia representativa, no qual o voto direto elege um representante para atuar em seu nome por um mandato temporário e a votar em todas as pautas de seu melhor interesse. A direta garante poder de voto igual para todos, embora não funcione quando se pensa em escala. A representativa por sua vez, garante governabilidade, mas origina o conflito entre agente e principal.

Mas a blockchain mudou o jogo e permitiu a realização de uma antiga utopia ou mito político: o de que existe um meio-termo entre ambos os formatos democráticos. É a evolução do sistema que torna o antigo obsoleto. O conceito de democracia líquida consiste em ter o poder de votar em todos os temas e, ao mesmo tempo, o poder de delegar seu poder de voto em cada votação (ou cada grupo de votações) para quem você confia em cada tema.

No ambiente da governança corporativa, significa dizer que os acionistas ou beneficiários finais de uma companhia podem votar em todas as decisões a serem tomadas e/ou delegar as decisões a um executivo ou rede de executivos para cada tema. Contudo, não de maneira ampla e por tempo de mandato e, sim, de forma específica e dinâmica, tema por tema, revogável a qualquer tempo.

Viveremos em um mundo com, exponencialmente, menor necessidade de centralização de poder, pois poderemos, tecnologicamente, operar de forma mais

peer-to-peer,

descentralizada, sem que as organizações se tornem um caos desgovernado e anárquico. E com registros imutáveis, todas as suas decisões como gestor serão registradas, analisadas, comparadas e automatizadas.

O Jupter, um ecossistema de inovação em Curitiba, está desenvolvendo, prototipando e testando um sistema de registro de decisões em assembleia de acionistas, conselhos e comitês. As decisões, registradas na blockchain, são verificáveis por qualquer participante. Atualmente em fase de testes, esse sistema permite a criação de moções e votações a qualquer tempo, com registro distribuído dos votos, de maneira que o histórico da vida societária da empresa possa ser analisado por um computador.

Em um mundo em que são cada vez maiores os riscos reputacionais e a hiperexposição, será possível, por exemplo, avaliar a quantidade e a qualidade de decisões tomadas e seu impacto na valorização de longo prazo, bem como avaliar quem são os melhores tomadores de decisão para cada área/assunto/fórum e até automatizar a tomada de decisões com inteligência artificial.

Blockchain é um dos dez fatores de pressão da nova economia sobre a governança, apresentados pelo livro ''Governança & Nova Economia'' (veja mais em www.goneweconomy.com).

As tecnologias descentralizarão processos de tomada de decisão coletiva abrindo um novo universo de estruturas, jogos de poder, formatos e incentivos que afetarão a governança e o compliance tanto em organizações como em startups.

Anderson Godz

 

 

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