[ editar artigo]

Contradições geram inovação ou inércia?

Contradições geram inovação ou inércia?

A contradição é uma ótima fonte inspiração para inovação e os conselheiros são uma parte fundamental da solução.

Tive a paciência de esperar 60 dias para colocar este pensamento em palavras e compartilhar por aqui, porque, o impacto quando saímos do Brasil para visitar outras nações, particularmente EUA, China, Israel e outras tantas que tem trabalhado para gerar inovação, é muito grande. De um lado um misto de fim do mundo, de outro, um misto de incompetência, e no fim, a vida como ela é, alguns sempre estão na frente e outros sempre estão atrás, e não quero parecer pessimista, prefiro ser fatalista e observar como as coisas são de fato.

Meu objetivo na última viagem de pesquisa era ver como andava a cultura no Vale do Silício, então, sai daqui de Curitiba e me juntei a um grupo de cerca de 10 pessoas e fui para lá. Para entender a cultura de um lugar, seja ela de uma cidade ou de uma empresa, você precisa ir para lá e viver a vida do povo ou o dia a dia da organização.

Em algumas partes do mundo, como no Vale do Silício e nas empresas daquela região, para assimilar a cultura, basta uma semana intensa de imersão que você vai se deparar com a cultura transpirando no lugar e com muitas contradições que, ou te levarão para um sonho ou te desafiarão a uma reflexão.

Nesta jornada pelo Vale, me deparei com duas cenas que me levaram a fazer uma profunda reflexão.

A primeira foi ver a quantidade de homeless, como são chamados os moradores de rua por lá, e que, para dizer o mínimo, me deixou chocado.

A segunda, foi ver os modelos de autossuficiência que grandes corporações do mundo digital têm criado.

Vamos olhar um de cada vez porque em um primeiro olhar, eles podem não aparentar manter conexão entre eles, mas em minha percepção, mantém.

Comecemos pelos homeless e vamos então pensar como é possível existir milhares de moradores de rua, em um estado com mais de 900 mil habitantes, que se fosse um país, seria uma das maiores economias do mundo. Além disso, escutamos por toda parte que existem quase duas centenas de bilhões de dólares disponíveis para serem investidos em startups que consigam resolver a “DOR de pessoas”.

Então, neste ponto comecei a ficar chocado, porque, não existe dor maior na vida de alguém do que perder a sua dignidade, ou alguém acredita que morar na rua é uma escolha consciente e lógica? Se você ainda está pensando na resposta, vou adiantar, não, não é uma escolha. O ser humano, em qualquer parte do mundo, em qualquer cultura, busca intensamente resolver os problemas de base, aquele identificado na pirâmide de Maslow, aquela mesma que diz que as pessoas precisam comer, vestir e morar, como sendo a necessidade mais básica de uma pessoa.

Sendo assim, com base nas teorias de Maslow, uma pessoa normal, busca satisfazer estas necessidades, dando sua própria vida.

Então, uma conclusão simples e rápida é que existe uma dor, existe dinheiro e existem pessoas brilhantes no Vale, mas parece não estar resolvendo.

Este quadro acontece lá e em muitas outras partes do mundo, onde a realidade: DOR + DINHEIRO + BRILHANTISMO é igual, mas a dúvida persiste: Cade a solução?

Será que estamos diante de uma cultura ou sociedade que perdeu a capacidade de ser impactada por cenas como estas ou será que estamos diante de uma dor insolucionável, ou estamos anestesiados e a dor já não é tão dolorida?

Se estamos diante de uma sociedade com a mente cauterizada e que acredita que isso não é nosso problema, o mundo será muito pior a cada dia que passa, pois as causas das pessoas não nos mobilizarão mais, e a ideia de que existe uma geração movida por propósito chegando, que troca de empresa apenas por discordar do "propósito" da organização, neste caso, esta “verdade” não seria bem assim, e isso pode ser uma oportunidade e um risco, pois poderíamos estar diante do fato de poder questionar as milhares de iniciativas de retenção de pessoas nas empresas, que além de custarem milhares de dinheiros, tiram o sono dos CEO’s e dos Conselheiros das organizações.

Mas se isso é verdade, as pessoas de qualquer geração, estão preocupadas consigo mesmas e que se dane o próximo.

Quem é o seu próximo?

A pergunta é: quem cuidará do seu próximo? Quem perceberá a dor e resolverá o problema?

Esta é uma preocupação legitima que está rondando a mente de muitas empresas de alto impacto tecnológico, mas antes de tudo deve ser a nossa!

Bom, agora vamos olhar os modelos de autossuficiência que algumas grandes corporações e outras nem tão grandes assim, já que a desculpa poderia ser o tamanho das empresas, que tem reinventado o modelo de “escravidão”. Uhau, escravidão? Você pegou pesado demais. Pode ser, mas a modelagem merece no mínimo uma análise e um acompanhamento de perto.

Vamos lá, você seria a favor que sua empresa te desse carro, computador, wireless, celular, roupa lavada, oficina mecânica, saúde, comida…. A primeira resposta sem muito cuidado seria sim é claro. Mas será que é mesmo tão claro? Vale a pena mesmo ser membro de uma equipe nesta empresa? Você daria tudo por esta vaga?

Não deixe que as provocações te coloquem contra mim ainda, porque no fim, você vai entender que meu objetivo não é destruir nenhum modelo, em detrimento de outro, mas, o de fazer uma reflexão sobre modelos que transformam organizações e como eles podem ser úteis para transformar a sociedade também, e aí vamos conectar os homeless.

Então, de volta aos grandes conglomerados que estão demandando foco total de seus colaboradores e para isso, são capazes de colocar a sua disposição tudo, para que sua atenção não seja disputada com nada a mais do que produzir.

Até aí tudo muito bem, mas a minha dúvida ou provocação é se você está entrando nessa jornada analisando a embalagem que estão nos entregando?

Os objetivos de produzir mais, tem feito os chicotes de hoje não doerem como doíam antigamente no corpo, mas produzirem efeitos na sociedade como já produziram no passado, pois os alienados escravos não tinham voz nem vez, por obvias razões, mas os "escravos ou colonos" de hoje, estão alienados por outras razões e não são capazes de usar sua "liberdade" para tirar homeless da escravidão das ruas, ou será que este Pitch Deck não atrai investidores?

Sei que parece ser politicamente incorreto dizer estas coisas, pois novamente, um desavisado, poderia achar que meu objetivo seria crucificar grandes empresas, mas eu não tenho esta intenção. Sou pró-mercado, mas esta contradição foi muito dura para o meu provável fraco estômago social.

Produtividade extrema é ótimo e deve ser o objetivo de toda empresa, porém o seu time deveria ser levado a entender exatamente porque cada uma das iniciativas de aumento de produtividade existem, para que, usando sua liberdade e compreensão, escolham racionalmente olhar para o próximo também e utilizar parte deste aprendizado da produtividade que é gerada, para influenciar a si e sua empresa a se juntarem na jornada da dor do próximo e pensarem ainda mais no ser humano vulnerável, resgatar mais pessoas da miséria, fazer com que pessoas com algum tipo de limitação possam voltar a sonhar com uma vida normal, cheia de alegria, o que faria o mundo corporativo ainda mais produtivo e as cidades ainda mais felizes.

Estou seguro de que a geração de riqueza deve ter um propósito além do enriquecimento, pois não é coerente que uma cidade, estado, país ou corporação sejam referência para o mundo e a sua volta, as coisas não mudem.

Líderes deveriam levar times a pensar nestas contradições e facilitar completamente as iniciativas de tratamento destas dores e mazelas da sociedade, em certa medida, criadas pelas contradições que provocam as tão bem-vidas inovações.

Conselhos deveria brigar para aprovar recursos aplicados a estas dores, com maior alegria do que quando pagam bônus a executivos que geram resultados.

Quais as contradições que te incomodam hoje na sua cidade, empresa, comunidade que poderiam gerar alguma iniciativa para você ajudar a resolver? Que tal se engajar em causas que mobilizam o seu coração?

Há cerca de 10 anos atrás vi a dor dos jovens em situação de vulnerabilidade e isso gerou uma grande contradição comigo, pois tenho duas filhas que não passariam por esta situação nunca.

Percebi que poderia usar minha influência e papeis no mundo corporativo para tentar dar alguma oportunidade para aqueles jovens, pois claramente não tinham a mesma oportunidade que minhas filhas teriam. Então me envolvi diretamente com uma organização (http://abcvida.org.br/) que atua com programas de aprendizagem e cuidamos de jovens que estão buscando seu primeiro emprego. Já passaram por lá mais de 6.000 jovens. Não resolveu o problema do mundo, mas diminuímos a dor destas famílias usando parceiras com empresas e profissionais de diversas áreas.

Esta contradição segue sendo estudada e atendida em parte, porque a ABC Vida resolveu não fechar os olhos.

Dongley P.Martins, viajei como Advisor, Investidor Anjo, Sócio da GooD-z Participações S.A. e consultor em projetos de transformação, mas neste post escrevo como cidadão que diante de tamanha contradição, resolveu provocar outros a transformar vidas.

Governança & Nova Economia
Ler matéria completa
Indicados para você